CANDY DARLING

Eu nunca soube o nome delas. No final dos anos 80, ao passar pela Getúlio Vargas, um amigo meu (já falecido) me disse: - Olha lá, tá vendo aquela mulher na janela do apartamento, é um travesti. Ela tem uma irmã igual a ela. Elas passam o dia inteiro na janela, e a noite pegam os bofinhos que passam por aqui. Elas agarram as presas fechando os olhos com aqueles cílios postiços enooooormes! E aí ele fechou as duas mãos no meu rosto, como se fossem os cílios do travesti, e caímos na gargalhada.
Depois disso eu fui trabalhar próximo ao apartamento, e sempre que passava por ali, dava uma espiadinha para ver se ela estava lá. Ela era loira, muito loira. E muito maquiada também. Mas não era uma maquiagem colorida, era para disfarçar imperfeições, como a sombra da barba, por exemplo. Ao fundo, as vezes eu via a irmã, que era travesti como ela, atrás de diáfanas cortinas (tá bem, era voal). Quando eu passava elas não esboçavam a menor reação. Apenas me acompanhavam com aquele olhar etéreo. Eu sempre as imaginei como a Candy Darling, passando o dia lendo revistas de moda e de fofoca, tomando chá, coquetéis e fazendo de conta que eram mulheres de verdade, numa vida solitária, de frente para uma avenida movimentada. Elas tinham uma atitude não de superioridade, mas de dignidade . Marcelo nos conta que agora o apartamento está vazio, para alugar. Bem, quem se importa com o que aconteceu a elas? Eu. Elas faziam parte do meu imaginário. Na linha que separa a realidade de uma cidade grande e os seres fantásticos que habitam nela. E elas representavam um pouco mais de mistério e diversão de morar em POA.
Marcelo, desculpa a "chupada" da tua postagem.

3 comments:

Anonymous said...

nunca tive a oportunidade de ver um desses (ou uma dessas) ao vivo assim sempre....

Marcelo said...

Mea Culpa!

Hoje eu saí de casa e dei de cara (só de cara) com a travesti na janela. O apê do lado que está pra alugar.

Sorry (tranvesky beyond getulio street dance mix)

John said...

Rárárá!!! Estou feliz novamente!!!