SEX IN THE TOWN
Ela era loira e alta, voz grave de quem fuma mas não fumava não, era assim mesmo.Seu auge foi na era disco, fervia nas poucas boates que abriam e fechavam na cidade. Morou na capital, moça independente e liberada sexualmente, transava com quem queria, namorava noivos, tinha romances com homens casados, contava suas histórias de alcova para minha tia, eu escutava atrás da porta mas não entendia muita coisa. Casar? Nem pensar. Os homens corriam atrás dela e ela só queria curtir a vida. Vaidosa, invejada (e temida pelas donas-de-casa) sabia o que usar e como se vestir para chamar a atenção. Ela chamava minha tia de Boneca, uma gíria antiga: - A Boneca tá aí? Me perguntava na porta de casa, já meio que entrando, aquele mulherão de voz rouca. Eu achava engraçado. No telefone então parecia voz de homem chamando minha tia de boneca, eu ria baixinho e só respondia Tá, meio envergonhado e ia correndo chamar minha tia.
O tempo foi passando e os homens, rareando. Já não havia mais aquela procura, apenas cantadas baratas pra massagear o ego de vez em quando. Então veio a doença, um choque na vaidade já abalada com o peso da idade. Quimio, rádio, o medo de perder os cabelos, tentando manter a vida e a dignidade. Melhorou por um tempo mas não conseguiu vencer o câncer. No pulmão, logo ela que não fumava. Talvez, só talvez, se ela tivesse alguém ao seu lado, dizendo para continuar lutando. Alguém que ela amasse tanto que lhe trouxesse forças para derrotar a doença. Embora cercada de parentes e amigos, não havia sobrado um único amor ao seu lado. Não houve redenção. A vida real não acabou como em Sex and The City.
5 comments:
No final das contas, a vida real é muito mais cruel que a do cinema, não?
a vida real é cruel demais. se ao menos desse pra ser como a samantha, todos os dias, para sempre...
só respondia
Tá.
Tá.
ta ta ra ta.
tá tá rá tá.
ok, cansei.
bjx...
Nossa. Sempre assusta isso, não? Realidade demais...
;-)
Ah, a Boneca virou um clássico! A tia disco deixou seu legado.
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