INTRODUCING PAMELA PARIS


Well. Idos de 94/95.
Eu tomava chá no apartamento do meu vizinho de cima, decorado como um camarim de corista, numa aprazível tarde de domingo. E ele me perguntava:
- Eu sapateio muito a noite? Por que se eu fizer muito barulho, tu me avisa!
- Não, tu não sapateia, fica tranquilo.
- Aquela última festa que eu dei aqui em casa, a do pijama, foi ótima, pena que tu não veio! Teve gente que ficou se beijando na sacada, imagina só a cara dos vizinhos!
- Eu não pude vir, minha mãe estava aqui, me visitando.
- E ela ficou chateada com o barulho?
- Não, ela toma remédio para dormir, não ouviu nada.
- Ah, que bom, por que o babado foi forte. E um amigo meu ainda transou com o flanelinha quando foi embora.
- Como assim, o flanelinha aqui da rua? O que dorme na calçada de vez em quando?
- É, esse mesmo, meu amigo é incorrigível.
- Credo!
- Pois é, como eu estava te contando, tem um amigo da minha família, de vez em quando ele vem me visitar...
- É?...
- É, ele é casado, ninguém pode saber de nada...
- É?...
- É, ele vem pela manhã, ele é bem macho sabe? Ele chega, tira o revólver do casaco e põe em cima da mesa. Eu adoro!
- (ficando bege) É?...
- É, ele não tem dinheiro sabe, então eu dou uma graninha pra ele quando ele vem aqui...
- Ãhã...
- Bem, dá última vez, não foi muito bom, me deu azia...
- Como assim?
- Bem, eu acordo muito rouco, com pigarro, sabe, por causa do cigarro, então eu fiz um leite quente com mel e tomei...
- E daí?
- Dai ele pediu para eu chu*á-lo, e aí eu comecei, mas aí fui ficando enjoado com o leite quente e com aquela coisa na boca logo de manhã, quase vomitei...
- Nossa...
- É, tu já deve ter visto ele subindo as escadas, não viu? Ele é moreno, alto, cara de mau...
- Não, nunca vi, eu acordo tarde...
- Pois é, eu queria te pedir um favor... Sabe aquelas minhas roupas de mulher, perucas, sapatos, perfumes, maquiagem...
- Sei...
- A faxineira da minha mãe vem aqui essa semana, e eu não queria que ela visse aquilo, ela pode contar para os meus pais, e aí eu tô ferrado. Será que tu podes guardar aquelas caixas no teu apartamento, só essa semana, na sexta-feira eu pego de volta.
- Claro, sem problemas.
- Tu tens que te vestir de mulher, é tão bom! Tu ias ficar tão bonito. Que número tu calças?
- 43.
- Ah, que pena, eu não tenho sapato 43. Quer mais chá?
- Não, obrigado.

Notas:
*Pamela Paris era o nome do perfume do meu vizinho, o perfume que ficava dentro daquela caixa, sabe?
*Em seu apartamento, além do lustre de cristal, das peles de animais espalhadas pelos sofás e da quantidade de tapetes persa no chão, ele mantinha durante o ano todo luzinhas brancas de natal, fazendo a volta na parede da sala.
*Pamela pegava minha revista Veja da caixa do correio, antes de eu ler, e devolvia na terça ou quarta-feira, com migalhas de bolacha entre as folhas. Ela devia ler tomando chá.
*Quando eu estava mudando para BSB, Pamela vendeu seu apartamento e foi morar no hotel da família, que ela administrava, para cortar custos. Decadence avec elegance.
*Antes de ir embora, ainda encontrei-o no carnaval em Floripa e tiramos uma foto juntos. Ele vestido de mulher, claro!

2 comments:

Anonymous said...

que meigo!
adorei.
mas a parte da revista veja com migalhas de bolacha, foi ó-te-mo.

Rody said...

...eu morreria de rir na parte do revólver. rs.