O ARTISTAPLÁSTICO

Conheci o Artistaplástico na praia. Ele, cara de underground dos 80's , de quem saiu de um texto do Caio Fernando Abreu. Eu, dezenove anos, quase vinte, acabando de dar adeus ao quartel, que tinha dado uma guaribada no meu corpinho magro, cabelo crescendo, descobrindo um mundo do qual sempre quis participar. Com ele fumei maconha pela primeira vez (só uma tragada), vi dois homens se beijarem, com ele quase deixei de passar a noite de natal com minha família. Estava com ele por que ele era um homem. Eu achava que ele era um homem, ele era uns seis anos mais velho que eu. Ele me levava em bares que eu nunca tinha entrado, mostrava fotos de ex-namorados nus, ouvia Laurie Anderson. Ele escrevia cartões, com letra bonita, escrevia a letra de Marina Lima, vem chegando o verão, e o meu verão vinha chegando mesmo, quente e erótico, como eu sempre quis que fosse.
Um dia me chamou, nos encontramos numa pracinha, me contou que tinha ficado com outro cara na noite de natal, por que não sabia se estávamos juntos ou não. Me deu um tempo pra pensar. Quem tem vinte anos e mora no interior tem tempo pra isso. Eu não pensava em fazer pacto com ninguém, ter compromisso, namoro, controle, ciúmes, isso veio depois, eu queria ficar com alguém enquanto tivesse vontade. Então pensei e esqueci. Fui viver, conheci V, também na praia, pinta de conquistador italiano, forte, baixo, com todos os seus músculos salientes. Eu andava de moto com V, ia à praia, passeava na avenida, e a noite, a noite eu passava com ele na barraca, no pátio da casa de uma amiga dele, até ele adormecer, depois pulava o muro da frente e ia pra minha casa. Pela manhã, curso de datilografia, que coisa antiga! Nunca tinha dormido tão pouco, nunca tinha precisado estar acordado tantas horas por dia pra viver a vida que eu queria. Estávamos num bar, bêbados, V, eu e outras pessoas que eu não lembro quem eram. Chegou o Artistaplástico, me encarou, colocou o dedo na minha cara, disse que eu tinha que dar uma resposta. Que resposta, pensei. A resposta era aquilo que eu estava vivendo, aquilo que ele estava vendo. Logo em seguida V desmontou sua barraca e voltou para sua cidade. Eu estava apaixonado mas não me preocupei, o verão era meu e ainda não tinha acabado.
Logo conheci A, sabe onde? Pois é, na praia. Nessa altura do campeonato eu estava negro de tão bronzeado, cabelo dourado, o sol colaborou muito naquele verão. Com A eu tomei coca-cola com limão e gelo pela primeira vez, achei a coisa mais chique do mundo. Não era light, por que ainda não existia. Hoje eu detesto limão na minha light. A era coluna social, me deu um boné de presente. Eu disse que não usava boné, mas ele disse que boné tava na moda. A sabia tudo que ia acontecer na moda dali a dois anos. O verão acabou, mas eu continuei com A por mais algum tempo. A me levava no motel, me paparicava. Eu gostava daquilo.

Aí o Artistaplástico foi lá em casa. Me entregou um convite para o vernissage dele. Que legal, eu disse, claro que vou. Eu era novo mas já sabia que vernissages podem ser constrangedores e o vinho é sempre ruim, então não fui. Depois de uma semana, eu fui na galeria. Perguntei onde ficava a exposição do Artistaplástico, uma senhora simpática me encaminhou para uma sala na penumbra e saiu dizendo que iria acender a luz. E a luz se fez. Eram quadros enormes, que contavam a nossa história. Ele usava "técnica mista", técnica mista era underground naquela época? Pintou pássaros com olhares apaixonados, aves que se entrelaçavam pelo pescoço, patinhos feios virando cisnes. Eu fiquei olhando tudo aquilo, sozinho na galeria, em silêncio, só ouvindo os estalos do piso de madeira antigo quando eu caminhava. O que era aquilo, era eu? Éramos "nós"? Era a primeira vez que eu me via através da percepção de uma outra pessoa. Eu era uma "musa-inspiradora-garota-de-ipanema"? Eu só queria ser a musa de mim mesmo, hedonismo explodindo, a inocência de não saber como meus atos podiam afetar outras pessoas. Nunca mais houve um verão como aquele. Nunca mais houve um Astronauta como aquele.
Husky Rescue - Summertime Cowboy, assista aqui.

5 comments:

Anonymous said...

gentch, foi com um dos meus primeiros namoricos que também vim a bebericar coca-cola com limão e gelo. achei 'diuntudo'... adorei o momento 'recordar é viver'. acho que vou também abrir o baú do raul e contar alguns detalhes de meu insólito passado recente.

Rody said...

'O Primeiro Verão do Resto de Nossas Vidas'...

Poderia ser esse o título do filme da sua vida naquele ano.

Eu compraria o bilhete.

Marcelo said...

Amei, fiquei todo emotivo... ayay los recuerdos.

Anonymous said...

JJ. de onde tanta ms tanta inspiracao.
cada frase é um laçinho, dourado. claro, eu morro de rir que é pra não chorar. besitos de papel.

Jackson Morais said...

Direto do túnel do tempo... E aí, comprou um quadro, pelo menos?