KIKA
Quando chegou na casa dos meus pais, Kika estava tão fraquinha que, ao abanar o rabo, caía. Tinham dado um vermífugo para o bichinho, que não se aguentava mais em pé. Eu me apaixonei por aquela cadelinha que parecia um morceguinho de tão feia, e com um olhar esbugalhado que pedia para viver. Dava comida de hora em hora, uns pedacinhos de presunto, e assim o bichinho foi se reestabelecendo. Kika foi crescendo e se tornou um animal muito especial. Aprendeu a abrir portas, a roer prendedores de roupa (para desepero de minha mãe) e torneiras de plástico (para desespero de meu pai). Rosna para quem chega perto de mim ou de minha sobrinha, e para passear com ela na rua, só com coleira e no maior sufoco. Para qualquer visita o tratamento é o mesmo, dentes arreganhados. Sua vida é a mais espartana possível, não se pode nem colocar um paninho para aquecê-la no inverno, pois passa a noite brigando com o pano. A saída é colocar jornal toda noite, para na manhã seguinte encontrá-lo despedaçado. Já foi atropelada, mas sobreviveu, teve uma doença transmitida pela mãe dela, mas se recuperou, graças a perseverança da minha tia. Kika já se perdeu na praia, e para desgosto de minha mãe, foi encontrada. Foi sequestrada também (juro que é verdade), mas voltou para casa, sozinha, dois dias depois... Kika só ficou mais calma depois que teve uma ninhada de cachorrinhos. E foi ela, e não nós quem decidiu que já era hora de dar os filhotinhos. Na foto, Kika está prestes a dar sua tradicional lambida inconveniente. Ah, e toda tarde ela vai até a porta da cozinha choramingar uma fatia de presunto. E é sempre atendida.
Ao assistir Uma Vida Iluminada, lembrei de Kika, por conta de Sammy Davis Jr. Jr., a cachorra doida da foto aí de baixo.

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